sábado, 20 de novembro de 2010

Um dia ela andava por ai, distraída, sem um rumo certo, se sentindo flutuar, mas não por estar bem e sim por se sentir morta, morta por dentro. Seus passos lentos, quase arrastados, e a cada toque ao chão era um grito interno por socorro, seus braços acompanhando o movimento largado de seu corpo, para frente, para trás, como se não tivesse controle de seus próprios movimentos.
Por um segundo passa por sua cabeça a idéia de correr, mas logo cai em desavença com seus próprios pensamentos: que ousadia, correr. - pensa, fazendo sua própria voz ecoar em sua mente vazia, contraditoriamente cheia de lembranças. Ela não precisa chorar, pelo menos está consciente de que isso só faria as coisas piorarem, os cantos de sua boca começam a levantar lentamente, com muita dificuldade e relutância, ela parece serena se levarmos em consideração sua tentativa esforçada de sorrir, mas seus olhos não podem nos enganar.
Vazios, sem vida ou brilho algum. Eram como duas perolas negras, sujas e gastas pelo tempo e pela falta de cuidado, ambas mergulhadas em um mar negro, escuro como uma noite de inverno, sem uma estrela se quer para guiar quem tanto precisa. Tropeçando, caindo, errando, tudo por causa de lembranças que permanecerão imortais, como deveria ter sido.
Logo algo distante ilumina suas duas pequenas perolas negras, não era algo desconhecido, era o brilho intenso e antigo que a seguiu por toda a vida, o brilho que a cegou quando ela não queria ver, o brilho que a guiou quando estava perdida no escuro, o brilho que iluminou suas idéias, seu brilho preferido.
Seus passos se apressaram, finalmente ela pôde sentir o vento que passava sem que ela percebesse, por estar perdida em lembranças de calor, calor tão intenso, forte e verdadeiro que a impedia de sentir qualquer outra coisa se não o calor que a invadia e a sufocava. Seus braços mais rápidos acompanham o movimento do corpo agora acelerado, seus cabelos se movimentam junto com suas vestes finas, ela pode ver.
Respirar. Era o que ela realmente precisa, precisava de espaço, qualquer brecha que tivesse seria o bastante, abstrair suas idéias e fechar os olhos, apertá-los, até que a pressão fosse grande o bastante para fazer com que as lembranças explodissem.
Logo, exausta e completamente sufocada ela vem ao chão, senta sobre seus joelhos e leva suas mãos ao rosto. São quentes, tão quentes como o fogo que ainda queima dentro de si, são quentes como o calor que guarda, são quentes como lágrimas, límpidas e claras, que escorrem sem piedade alguma, mas que no fim, lavam e levam consigo a dor que a sufoca.
Meu brilho - ela diz tão baixo que nem seus próprios ouvidos cansados seriam capazes de ouvir, mas ele, ele sim a escuta, e como de costume a levanta do chão, a segura forte e ao mesmo tempo tão delicadamente que a pressão de seu toque é quase imperceptível. Ela levanta seu rosto com apenas um dedo, as duas perolas negras encaram duas pedras lindas e brilhantes, bem polidas, como um lindo colar de diamantes; o brilho se expande assim que ele deixa que seu sorriso apareça, e como a mais doce melodia foca as duas perolas e sussurra: eu sempre estive aqui, você só precisava enxergar.
Ela, hipnotizada pelo brilho intenso continua na tentativa, agora bem sucedida se sorrir, e como uma melodia baixa, calma demais, serena e aguda diz: prometa nunca deixar de brilhar, e principalmente prometa nunca mais deixar com que eu deixe de brilhar.

Um comentário:

  1. nooossa muito lindo esse texto meesmo (:

    adoro o jeito como você escrece é muito emocionante *--*

    beeijos

    ligialouro.blogspot.com

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